A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (escreve!) muito sério.

Elisabeth Bishop
Tradução de Paulo Henriques Britto

Crianças…

Minha mãe diz que se mata de trabalhar pra não deixar faltar nada. Não deixa faltar comida, não deixa faltar roupa e nem me deixa faltar na escola.
Meu pai chega cansado todo dia e fica trinta minutos no banho. Ele diz que é para descansar. Exagerado ele, eu nem tomo banho todo dia! Mas minha mãe diz que é falta de higiene.

Quando ele tem que sair, toma ainda mais um banho, se arruma e sai correndo. Não falta em nenhum compromisso. Mas desse jeito vai faltar água aqui em casa.
Hoje de tarde, minha vizinha veio aqui conversar com minha mãe e disse que estava cansada dessa vida.
Meu pai toma banho para descansar, então eu disse que ela devia ir tomar banho. Minha mãe me botou de castigo. Disse que é falta de educação.

Agora não posso mais sair do quarto por causa do castigo. E sem sair do quarto, não vou tomar banho.
Minha mãe diz que não deixa faltar nada aqui em casa. Mas ela mesma disse que falta educação. E não tomar banho é falta de higiene.

E hoje está faltando luz, minha mãe disse que faltou dinheiro pra pagar a conta, porque meu pai demora trinta minutos no banho.
Mas a vizinha deixou tomar banho na casa dela. Menos eu, que estou de castigo.

Coitada da minha mãe! Vai ter que trabalhar em dobro pra não deixar faltar educação, nem higiene, nem dinheiro e nem luz.
E meu pai trabalha para não faltar compromisso.
E eu não falto na escola.

Mas eu queria que um dia eles deixassem tudo isso faltar e ficassem só aqui em casa, como se também estivessem de castigo. Porque desse jeito, não vai faltar luz, nem dinheiro, nem educação, mas eu sinto falta deles.

O Jorginho

- O Jorginho? Com ela?
E seguia-se uma centena de risadas, algumas maldosas, outras que escapavam meio sem querer. Ela era seu amor secreto, estava perdidamente apaixonado e todos já sabiam, menos ela. E o pobre e desajeitado Jorginho ignorava o fato de não ter chances, segundo a opinião de todos que era lhe dada em alto e bom riso.
Jorginho viu que não podia mais ficar sem fazer nada pois ficaria assim pensando nela.
E nas risadas.
Ele resolveu estudar, ocupar seu tempo fazendo cursos, lendo livros, aprendendo coisas e livrar-se da vida desocupada e dos pensamentos que lhe atormentavam.
Jorginho dedicou-se a estudar a curiosa espécie da tartaruga-verde da região dos lagos canadenses. Começou a aprender italiano e ainda assim, só pra garantir, tocava violino nas horas vagas. Tanta dedicação lhe rendeu muitos elogios, diplomas e comentários.
E quando alguém tocava no assunto, o choque e a ironia eram aos poucos trocados pelo desinteresse.
Jorginho estava feliz pela indiferença. Estava pulando de alegria, pelas pessoas não darem a mínima, pois assim as risadas caíram de centenas para apenas algumas dezenas, mas em eventos isolados, como gostava de lembrar. Jorginho estudou mais e conseguiu de vez ocupar seu tempo. Tomava banho praticando movimentos do kung-fu e comia enquanto fazia a barba, intercalando entre passar a lâmina de barbear e um garfada, o que graças a Deus, não provocou nenhum acidente.
E em seu novo emprego, Jorginho impressionava a todos com seus conhecimentos sobre os répteis aquáticos, suas viagens e algumas boas críticas de seu último livro publicado.
- Olha lá, o Jorginho! – E continuavam olhando, com um sorriso no rosto.
Jorginho era motivo de admiração. Todas desejavam o Jorginho.
Já podia voltar a sua vida pacata. As pessoas não ririam mais por gostar de sua garota. Poderia voltar a amá-la secretamente, com todo mundo sabendo.
E já podia falar, para quem quisesse:
- Conhece ela? Eu a amo! – Com uma expressão de orgulho de quem conquistou esse direito com muito esforço e trabalho.
- Ela e o Jorginho?
E seguiam-se as mesmas risadas.
Jorginho merecia coisa melhor.

Mudando a rotina

- Sei lá.
- Eu também não sei não… Mas…
- Mas?
- E se a gente tentasse? Só um pouco, fizesse uma experiência?
- Já estou arrependido de ter comprado esse livro.
- Mas é a bíblia do assunto, Carlos Henrique! Se não conseguirmos seguir ele, não conseguiremos mais nada.
- Tá bom, eu topo. Mas vamos fazer só as mais simples.
- E as mais picantes, gostasas… O segredo é variar. Estamos caindo na rotina.
- Para mim já é demais. Olha essa foto, Maria Luíza! Como vamos fazer isso?
- Quanto mais difícil, melhor. Vai saciar nossa vontade.
- Então pelo menos tente se esforçar… das últimas vezes você não conseguiu chegar até o final.
- Por incompetência sua!
- Então veremos. Pode começar…
- Ok, liga o forno.